O sol nasceu de novo
Mais um dia
Vejo o fundo da rua
Da calçada voam pombos.
Num relance vejo figuras em camara lenta
Mais um olhar mortiço.
Frio no nariz, pela garganta
Num respiro de dor cruel
Mais um dia que não falei.
A minha cabeça não funciona
Sigo ordens, não há nada que pensar
Não há tempo para pensar
Dói demais e afecta a minha eficiência.
As minhas mãos estão feridas e já sinto o cansaço
Mais um corpo caído.
Há horas para tudo o que devemos fazer
Penso muito rapidamente se é um mundo de facilitismo
Não vejo o mundo melhor.
Acho que nem agradeci ao empregado
Do pouco a que agora tomo atenção já ninguém levanta a cara
Não há educação...
Já nem sei o que disse, devo ter pedido o habitual
Antes gostava de experimentar tudo, não havia nada que ficasse muito tempo por descobrir.
Hoje nem comigo concordo
Fácil não é sinónimo de melhor
Nesta sociedade mostra-se correlacionada com banal.
Agora que tenho o prato à frente percebo porque o escolhi
Vejo 'enjoo' escrito por todo o lado
É comida rápida e faltam cinco minutos para entrar
Passo fome.
As pessoas olham, no seu rápido andar, no seu rápido observar
Pela minha figura a perfurar
Julgam-me.
Mais uma noite e agora despertei
Penso no que amanhã me espera
Não consigo parar de pensar
Será que duro mais um dia?
É dificil manter-me à tona
Como me vou salvar?
A chuva esfria
Não tenho qualquer agasalho
O casaco ficou no cesto amachucado
É único peso nos ombros que posso tirar
Num momento me convenço que não ficarei adoentado
Doente da alma
Mas sei que não é verdade
Sei em que dia estou, mas há quantos não vejo uma cara amiga?
Não há tempo para confortos, vida social inibida.
(...)
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